Escorreguei eternamente por uma estreita calçada de vidro brilhante, ora translucida, ora opaca. Quando parei, tive a sensação de cair, mas ainda estava de pé. Coloquei-me de joelhos para olhar meu próprio reflexo em um dos encaixes espelhados, e assim pude vislumbrar eu mesmo olhando dentro dos próprios olhos, enxergando-me de joelhos em um quadro enquadrado pelo infinito.
Juntei pequenos pontos, gotas coloridas causadas pelo suor e pelo vapor de minha respiração lentamente tensa, gotas essas que se configuravam nas peças da calçada. Pacientemente agrupei as várias gotículas multicoloridas entre meu polegar e meu dedo indicador, e percebi a consistência elástica e boreal; uma beleza sem sentido, triste e necessariamente desigual.
Aguardei a gota grande e lenta pingar da ponta de um dos meus dedos, para então se depositar na minha retina, e dai fluir para o meu coração...
Levantei, olhei o horizonte lilás, e vi dois olhos. Sobrancelhas negras azuladas, e duas mexas onduladas. Uma mais curta e definida cobria o trajeto entre os dois olhos, a outra mexa, mais comprida e rebelde, parecia estar grudada na maçã direita do rosto, e a parte final que não estava presa a nada, tremulava com o sopro de lábios invisíveis.
Andei mais alguns passos, e os olhos se fecharam. Uma lagrima percorreu um caminho que já existia, e desfez o laço entre a mexa e a maçã do rosto. Olhei para esquerda como que puxado por uma força natural, e vi um banco de madeira, e um vaso azul celeste vazio junto a uma jarra vermelha. Uma força similar empurrou meus olhos para direita e vi uma pequenina mão acenar. A mãozinha não tinha pulso, e flutuava em uma espiral longínqua e cheia de poeira dourada.
No final da calçada existia um abismo. Dei alguns passos atrás, e corri. Pulei com os dois pés juntos e ultrapassei o abismo. Caminhei no invisível, fechei meus olhos e comecei a construir uma estrada firme e consistente. O caminho de repente se tornou íngreme. Busquei algo a que me agarrar e subitamente uma mão macia me segurou, e agarrou fortemente a minha. Eu não estava mais só...