terça-feira, 21 de junho de 2011

Tudo é você

E se pudéssemos passar por cima das nuvens como se fossem estas palpáveis?
E se andassemos devagar e apenas o olhar já bastasse?
(Nem assim teria sua imagem na frente dos meus olhos)

Só lamurias ao vento, Almas ao relento
Dividas do passado, Beijos simulados...

Se te toco em sonho quero a realidade
Se vislumbro a realidade esta foge como uma miragem... Por que?

Duplas antigas, rugas bem vistas, amizade amiga
Amores antigos, fortes e temidos, andando no vazio

E se a solidão canibal come meus orgãos
Menos meu coração...
E o abandono já não é mais itinerante
Nós tivemos realmente algum dia?

E se o desejo é a fonte da dor,
A falta de desejo é começo do fim?
O desejo tem vida própria...
O desejo da música, da poesia, do saber,
São todos desejo de você...
Tudo é você...
Minha vida é você.
A própria vida é você.
Só você.

domingo, 19 de junho de 2011

A Calçada Cósmica

Escorreguei eternamente por uma estreita calçada de vidro brilhante, ora translucida, ora opaca. Quando parei, tive a sensação de cair, mas ainda estava de pé. Coloquei-me de joelhos para olhar meu próprio reflexo em um dos encaixes espelhados, e assim pude vislumbrar eu mesmo olhando dentro dos próprios olhos, enxergando-me de joelhos em um quadro enquadrado pelo infinito.
Juntei pequenos pontos, gotas coloridas causadas pelo suor e pelo vapor de minha respiração lentamente tensa, gotas essas que se configuravam nas peças da calçada. Pacientemente agrupei as várias gotículas multicoloridas entre meu polegar e meu dedo indicador, e percebi a consistência elástica e boreal; uma beleza sem sentido, triste e necessariamente desigual.
Aguardei a gota grande e lenta pingar da ponta de um dos meus dedos, para então se depositar na minha retina, e dai fluir para o meu coração...
Levantei, olhei o horizonte lilás, e vi dois olhos. Sobrancelhas negras azuladas, e duas mexas onduladas. Uma mais curta e definida cobria o trajeto entre os dois olhos, a outra mexa, mais comprida e rebelde, parecia estar grudada na maçã direita do rosto, e a parte final que não estava presa a nada, tremulava com o sopro de lábios invisíveis.
Andei mais alguns passos, e os olhos se fecharam. Uma lagrima percorreu um caminho que já existia, e desfez o laço entre a mexa e a maçã do rosto. Olhei para esquerda como que puxado por uma força natural, e vi um banco de madeira, e um vaso azul celeste vazio junto a uma jarra vermelha. Uma força similar empurrou meus olhos para direita e vi uma pequenina mão acenar. A mãozinha não tinha pulso, e flutuava em uma espiral longínqua e cheia de poeira dourada.
No final da calçada existia um abismo. Dei alguns passos atrás, e corri. Pulei com os dois pés juntos e ultrapassei o abismo. Caminhei no invisível, fechei meus olhos e comecei a construir uma estrada firme e consistente. O caminho de repente se tornou íngreme. Busquei algo a que me agarrar e subitamente uma mão macia me segurou, e agarrou fortemente a minha. Eu não estava mais só...