Escrever é quase sempre como olhar no espelho. É quase uma tarefa subcutânea, cheia de procedimentos evasivos e cautelares, como desativar uma bomba e ativa-la novamente.
Sinto a necessidade de exorcizar a própria necessidade. Os sentimentos são demônios joviais, envoltos em uma armadura reluzente construída com todos os seus desejos. Há muito, mas muito tempo mesmo que quero ler Faulkner, mas quando tomei coragem, a edição havia se esgotado, e mais uma vez, assim ficou fácil pensar em destino...
“Pra onde devo ir? Será que devo ir?” Diz a canção... Será tudo que começa, há de terminar no seu contrario? Estaria o poeta que não é mais poeta certo quando disse que “todos os grandes amores tem de partir um dia”? Pois se não, não seriam grandes amores?
O som e a fúria ainda aguardam minha visão. Tudo que acaba ou é por conta da existência de seu contrario, ou é por ser aniquilado por este contrario. Tento continuar o texto, mas tenho vontade epidêmica de apagar tudo, como se a urgência da vida fosse contra a arte, como se arte fosse pra quem não tem urgência de amar, mas apenas de se lamentar.
“Sinto um vazio” ouvi dizer. É tudo um vazio? Magoar é necessário? Angustia e amargores não vão embora juntos, mas chegam de uma vez só. Somos fantasmas de nós mesmos? Masoquistas que flagelam a não-carne e se frustram por não sentir dor? O prazer é um castigo?
Dizem que a não individualidade é sabedoria. Mas dizem que se esquecer de si mesmo é não ser sábio. Dizem que amor genitor é o único verdadeiro. Mas dizem que amar sua cria é como amar a si mesmo, carne de sua carne é você mesmo e não outra coisa. Dizem que dizer é apenas dizer. Mas dizem que realizar sem dizer é como ficar de pé sem nunca saber o que são pernas. Enfim, dizem muitas coisas sem dizer nada. Mas não dizem nada e mesmo assim significam mais do que devem significar.
Textos inúteis que servem apenas como vomito que vai ser esquecido, fezes que vão embora para o esgoto. Escrever é magia, mas apenas quando se escreve do irreal. Estamos cheios do real. Esse real cíclico, esse real vicioso, esse real tirano, cheio de doçura e água neutra, cheio de rebeldia e entrega sincera. O real da não submissão, o real da postura inferior por escolha. Onde esta o furor do hedonismo calculado? Falo de coisas sem sentido? Falo demais como mais um louco qualquer que fala para parede? A parede esta prestes a me responder... E eu não quero que ela responda.
Ah! A fraqueza de fotografar e assinar suas fraquezas em frames cartunisados. É como se a vida e as pessoas tivessem sido sempre desenhadas por Robert Crumb. Mas do que adianta citar? Ninguém vai procurar. Ninguém irá prestar atenção alguma! É tudo como se fossemos crianças espartanas deixadas para morrer após o primeiro erro de treinamento bélico. Mas a vida não é um treinamento. É apenas a guerra, crua, cinza e nua... como a vida é um acaso no começo, é um acaso no seu fim.
Eu não queria escrever essas palavras porque ainda tenho esperança. A esperança doce e vulgar do homem demasiado homem. A espécie exige força, há um motivo para esconder as fraquezas, teremos sempre que substituir o vazio da força por outra força qualquer. Sinceridade. Morreu com Buda, morreu com Jesus-Cristo, morreu...