segunda-feira, 28 de julho de 2014

Pura Beleza Incerta

Caminhei pelo cheiro da manhã vazia
Pedras se juntando na multidão
Quis saber do futuro, do presente nunca mais
Olho o passado e digo nunca mais...

Naquele velho livro cor de terra
Naquela velha fila no quintal
Olhos vermelhos se cruzam, e se determinam
Beijo o passado e grito – até mais!

Flores transparentes em muros frios
Seu gosto é como o aroma de cafezais
Esculpe suas entranhas, afeta sua culpa
Esperar a escolha, não! Jamais!

Vindo a semente do demônio
Sopro seu útero com afeto
Se você fosse feita, feita de papel
O fogo do pensar viria logo atrás

Não resolvi ser mais uma entre muitas rimas
Não transbordei mais um em lagrima
Só sequei sua chuva, sua indecisão
E isso nunca vai ter perdão...

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Primeiro texto do ano

Carregou as cabeças decapitadas pelos cabelos da maneira que conseguiu. Havia uma cabeleira com fios mais curtos que teimava em cair e rolar em direções inoportunas. Sentiu um leve balançar em seu ombro. Esse alguém estava com a cabeça no lugar apesar de anteriormente esta escorregar e sair rolando na rua como uma cabeça impertinente.
Foi pra casa ruminando pensamentos obtusos sobre a felicidade. O que me faz feliz? O que faz alguém ser feliz? Posso ser feliz com poucas coisas? Posso ser feliz com uma coisa apenas? Não precisava de muitas coisas. Precisava de pouco. Sabia o que queria, e também sabia o que não gostava de querer.
Cavocou um fígado com uma colher de café. Ouviu o grito. Limpou a ferida e voltou a cavocar. A fila do ônibus andou. O cheiro de suor tomou suas narinas. Virou uma rua e o sol do oeste cegou sua visão empoeirada.
Onde estão as minhas chaves? Quero fechar meu peito antes de entrar em casa. Quero usar uma armadura forte, leve e imperceptível. Quero não ter que usar armadura. Quero ficar nu e não ser notado antes da primeira palavra. Quero dizer a segunda palavra para então me despir.
Cheio de sobras. Sobras sem fim. O apetite não acaba. Abutres voam com apenas uma asa, a outra se esfacela entre meus dedos. Mesmo assim eles continuam voando. Piruetas para equilibrar-se no ar. Ficar firme sobre os próprios pés para não sair voando.
Eu carregando minha própria cabeça sem cabelos. Eu costurando uma asa negra nas costas da minha mão. Eu andando em círculos com uma perna só. Eu sozinho reverberando o inreverberalvel.  Vibrando sem tremer. Caindo sem tropeçar. Sorrindo sem a boca. Chorando sem molhar.

Minha cabeça rolando pelo chão. Meu corpo voando sem asas. Eu e a vastidão em um cubículo sem paredes.