Carregou as
cabeças decapitadas pelos cabelos da maneira que conseguiu. Havia uma cabeleira
com fios mais curtos que teimava em cair e rolar em direções inoportunas.
Sentiu um leve balançar em seu ombro. Esse alguém estava com a cabeça no lugar
apesar de anteriormente esta escorregar e sair rolando na rua como uma cabeça
impertinente.
Foi pra casa
ruminando pensamentos obtusos sobre a felicidade. O que me faz feliz? O que faz
alguém ser feliz? Posso ser feliz com poucas coisas? Posso ser feliz com uma
coisa apenas? Não precisava de muitas coisas. Precisava de pouco. Sabia o que
queria, e também sabia o que não gostava de querer.
Cavocou um fígado
com uma colher de café. Ouviu o grito. Limpou a ferida e voltou a cavocar. A
fila do ônibus andou. O cheiro de suor tomou suas narinas. Virou uma rua e o
sol do oeste cegou sua visão empoeirada.
Onde estão as
minhas chaves? Quero fechar meu peito antes de entrar em casa. Quero usar uma
armadura forte, leve e imperceptível. Quero não ter que usar armadura. Quero
ficar nu e não ser notado antes da primeira palavra. Quero dizer a segunda
palavra para então me despir.
Cheio de
sobras. Sobras sem fim. O apetite não acaba. Abutres voam com apenas uma asa, a
outra se esfacela entre meus dedos. Mesmo assim eles continuam voando. Piruetas
para equilibrar-se no ar. Ficar firme sobre os próprios pés para não sair
voando.
Eu carregando
minha própria cabeça sem cabelos. Eu costurando uma asa negra nas costas da
minha mão. Eu andando em círculos com uma perna só. Eu sozinho reverberando o
inreverberalvel. Vibrando sem tremer.
Caindo sem tropeçar. Sorrindo sem a boca. Chorando sem molhar.
Minha cabeça
rolando pelo chão. Meu corpo voando sem asas. Eu e a vastidão em um cubículo sem
paredes.